Um olhar sobre os museus de Manaus

Galeria do Largo. Foto: Rila Arruda.

O estado do Amazonas possui por volta de 34 museus públicos e privados, sendo 30 deles concentrados na capital Manaus, sem contar com as galerias de arte, jardins botânico e zoológico reconhecidos pela nova museologia como espaços que podem possuir atividades museológicas. A partir de alguns dados de pesquisa vou discorrer nesse artigo sobre os primeiros museus e política museal, em seguida farei uma breve reflexão sobre a atual realidade. Não incluo nenhuma análise sobre números da frequência do público visitante, pois esse assunto possivelmente será um outro artigo reflexivo a ser publicado.


Paço da Liberdade: o primeiro museu municipal. Foto: Rila Arruda.

História

O primeiro museu de Manaus foi criado em 1883, o Museu Botânico do Amazonas, e extinto em 1890, sendo uma iniciativa da princesa Isabel (Brasil Imperial). O Museu Botânico representou a primeira instituição científica, muito antes da criação da Universidade Livre de Manáos e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA. A segunda iniciativa parte do governo local (já no Brasil República) com a criação do Museu Amazonense em 1895 e extinto em 1900. Depois só há outra iniciativa quando o governo comprou o acervo do Bernardo Ramos e fundou o Museu de Numismática em 1900, com existência até hoje.

Vale ressaltar também o museu privado de que se tem notícia e que existiu nas primeiras décadas do século XX: o Museu Rondon do proprietário Crizantho Jobim (1917- 1934). No ano de 1934 o acervo do museu foi vendido para o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e passou a se chamar Museu Etnográfico Crizantho Jobim, com permanência até os dias atuais no primeiro piso do IGHA. Esse museu possui um dos acervos museológicos mais antigos juntamente com o acervo do Museu de Numismática.

A partir de 1997, com a criação de uma secretaria de cultura por parte do governo do Estado, houve um crescimento contínuo na política museal para Manaus, somando atualmente um total de nove museus geridos. Por parte do poder público municipal houve o contrato de comodato com a Fundação Joaquim Nabuco (instituição federal) para a administração do Museu do Homem do Norte, entre os anos de 2006 a 2009 (hoje está com o governo do Estado), e as tentativas de implantar o Museu da Cidade desde a década de 1980, sendo agora um projeto direcionado para o Paço da Liberdade.

Palacete Provincial agrega 5 museus estaduais. Foto: Rila Arruda.

Realidade

No Amazonas existem aproximadamente 120 mil indígenas, distribuídos nos seus 62 municípios, agrupados em 64 povos indígenas, sendo o estado que mais concentra indígenas do Brasil. Em Manaus, são variadas as etnias presentes que vivem nas zonas urbana e rural. As etnias mais numerosas são dos Baré, em seguida dos Sateré-Mawé, e dos Tukano. Desses povos, os Baré viviam aqui, território que hoje se encontra Manaus, antes da conquista colonial, pois outros povos, como Manáo e Tarumã, foram extintos. Resumindo: somos detentores da maior diversidade cultural indígena do Brasil e por que não temos um grande museu à altura dessa riqueza cultural?

Em Manaus, há apenas um museu etnográfico gerido pelo poder público estadual, o Museu do Homem do Norte. O museu federal Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), pelo seu caráter de museu universitário, é o único que desenvolve pesquisas científicas. Ainda há os pequenos museus etnográficos privados, bem como o Museu do Índio e o Museu Waimiri Atroari.

Além das culturas indígenas, as culturas populares têm uma presença muito pequena nos museus. Apesar da sua riqueza, suas lendas, mitos, modos de ser e de fazer, crenças e danças, ainda não ocupam o lugar que merecem nos espaços museológicos, seja pelo desinteresse de quem os faz, ou do público visitante. Também há apenas dois museus de ciências naturais que demonstrem a biodiversidade amazônica, o Bosque da Ciência e o Museu do Amazônia, e não esquecendo da situação parecida dos museus de arte.

Todos os museus existentes podem ser considerados pequenos e temáticos, e nenhum contempla a diversidade que possuímos, tanto no seu sentido histórico como nos seus aspectos culturais e naturais. Os museus privados mantêm exposições permanentes, geralmente de história institucional, com objetos antigos relacionados, numa concepção de museologia tradicional. Ressaltando também que esses museus não possuem espaços para receber exposições itinerantes de grande porte.

Museu da Amazônia: museu privado. Fotos: Rila Arruda.

Balanço/Proposta

O poder público e a iniciativa privada poderiam ampliar a oferta de museus e melhorar os existentes numa concepção da diversidade e interação museográfica. Houve um aumento gradativo do número de museus nos últimos anos, mas muito ainda precisa ser feito, desde a qualificação dos profissionais até a firmação de parcerias com várias instituições, como por exemplo, com as secretarias de educação e escolas privadas.

Seriam importantes, também, ações no que concerne à política de formação de público, e uma mudança no discurso oficial das exposições, uma vez que os mesmos se constituem como ferramentas poderosas de educação e reflexão sobre nosso contexto amazônico.

Portanto, espero que um dia nossos museus possam desenvolver atividades características de uma instituição museal, nas quais são: pesquisa, preservação e difusão. E que todos sejam repletos de referências que façam sentido aos manauaras, a tal ponto que eles gostem e queiram sempre voltar.


Rila Arruda 
rila.arruda@gmail.com

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